Fundo do poço
Abro a porta. Minhas narinas são atacadas violentamente por uma mistura de uréia e fezes, o incomodo vai até o meu cérebro. Insuportável. Buscando não desmaiar e suportar aquele lugar, levanto meu braço direito e viro a cabeça, respiro através da manga da camiseta em meu ombro. Puxo o ar até o limite de meus pulmões e segurando-os cheios abaixo o braço. Viro e fecho a porta encostando na maçaneta, enojado imaginando o que já havia tocado nela. O cheiro continua forte e o ar dentro de meus pulmões reclama por liberdade. Viro e encontro-me de frente ao espelho. Os anos de vida finalmente me alcançaram. Rugas, pés de galinha, palidez. Como pude afundar tanto na vida? O fundo do poço nunca chega? Amigos de outras décadas já tentaram me tranqüilizar com o papo de que não há como ficar pior, mas fica. Como uma bola de neve descendo a montanha sem fim. O vidro está quebrado. Uma fatia de meu reflexo segue outra direção. Minhas orelhas não ficam no meu nariz. O bolor da moldura do espelho é evidente, o que mostra a umidade elevada daqui. Um barulho repetitivo de ventilador trepida em meus tímpanos, afeta o meu cérebro e prejudica minha estabilidade. Periódico, igual e constante, do tipo que induz ao suicídio. O local é apertado, possui a mesma altura e largura da porta e comprimento pouco maior. Com certeza nenhum claustrofóbico agüentaria mais que dez segundos aqui. Mas era minha obrigação estar ali, um ultimo recurso, uma ultima esperança, uma necessidade. Mexo meus pés meio metro adentro, o maior passo possível. Enquanto direciono meus olhos e mãos ao meu cinto, noto o chão molhado, amarelado. Meus pés estão protegidos por um simples chinelo com sola de um centímetro. E se aquele liquido encostasse em mim? E o fim do poço que nunca chega? Solto todo o ar do pulmão, levanto meu braço, e encho-o novamente até a boca. Levanto a fivela do cinto e a retiro do buraco no couro. Abro o botão das minhas calças e puxo o zipper para baixo. Tiro a cueca do caminho. E urino ali, na água do vaso sanitário manchado nas bordas por pistoleiros destreinados, desgastado e corroído pelo tempo e uso, sendo mais uma vez gasto. Três gotas e duas mexidas e acabei. Subi a cueca, zipper, fechei o botão e o cinto. Puxei mais ar nos meus ombros. Faltava a descarga, a pior parte de qualquer ida ao banheiro. Dessa vez não era uma maçaneta do lado da privada, nem uma corda encardida cutucando a minha testa. Era um botão na privada que nascera branco, e agora amarelo, deveria ser apertado. Cuidadosamente com o dedo do meio o coloco sobre o botão e aperto com a maior força e rapidez possível, tentando privar-me do maior tempo possível dentro da privada. A água amarela entra em espiral e da lugar à transparente água sanitária. Mais meio passo de volta a posição de entrada. Defronte ao espelho novamente, pulmões meio cheios ainda e segurando. Viro a torneira da esquerda, nada acontece. Viro a da direita e a água desce e escorre pela pia bege com marcas pretas de sujeira. Molho as mãos e procura por um sabonete. Não há. Esfrego as mãos e deixo a água escorrer por alguns segundos e fecho a torneira e também não há papel para secar as mãos. Penso em secar na camiseta, mas é fácil notar uma camiseta molhada. Enfio as mãos no bolso da minha calça e seco ali mesmo. Com pequenos passos tento girar em direção a porta sem encostar em mais nada, estendo a mão e aperto a maçaneta para abrir. Gostaria de poder lavar as mãos novamente. Tarde demais, meus pulmões agora suplicam por ar fresco, era só puxar a porta e liberdade. Sai do banheiro deixando a porta aberta, a passos largos vou me retirando da loja de conveniência do posto de gasolina. A dor da vida passou um pouco já que pelo menos eu não estava mais lá dentro. O banheiro de posto, a última alternativa, o fundo do poço.
