Mordidas
Há infinitas rotas para voltar para casa. Um belo dia decido sair do meu caminho normal e ir por outro e lá encontro um cachorro. Era bonito e aparentemente dócil, nem latir para mim ele latia enquanto eu me aproximava, só foi eu ficar há poucos metros dele que fui mordido ferozmente.
Dia após dia eu voltava para casa pela rota do cachorro e era mordido de novo. De novo. De novo…
Minha mãe já falava “Porque você continua a ir por lá? Pegue o caminho antigo!”.
E no dia seguinte estava eu voltando para casa com mais uma mordida.
Meu irmão dizia “Cara chuta esse cachorro quando ele for te atacar.”.
Novamente mais uma mordida.
Eu tentava conquistá-lo. Levava salsicha, ossos, bolinhas e todo tipo de brinquedo. Nesses dias ele comia a salsicha parecia amigável, mas logo que acaba estava novamente com seus dentes me furando.
O fato é: Se eu for por lá serei mordido então é um raciocínio simples. Não vá por lá.
Continuo a ir e tentar agradar ao cachorro, mas sempre resultando em mais uma mordida.
Um dia olho para a rua do cachorro, analiso minhas feridas e pego a rua ao lado. O latido do cachorro me chamava ao longe, derrotado fui embora e dessa vez sem dor.
Derrotado? Como perder uma batalha que não foi travada? O cachorro com certeza não se considera vencedor por nunca mais ter me visto. Na realidade eu desisti, não desisti de tentar conquistar o cachorro, mas desisti de deixá-lo me morder, desisti da dor e do sofrimento, desisti de impor mais barreiras a minha vida do que ela já tem, desisti de deixar de seguir em frente para seguir em frente.

algumas vezes é apenas pela insistência na dor que a gente retorna, pq a dor sempre lembra que a gente tá vivo.